Em nome do Partido Comunista Português a todos saúdo e agradeço a vossa presença neste que é mais um importante e marcante acontecimento do intenso e diversificado calendário de iniciativas que estamos a levar a cabo no âmbito das comemorações do nascimento de Álvaro Cunhal.
A exposição que agora se abre e se dá a conhecer ao povo de Lisboa e ao país, para além da homenagem e do reconhecimento que encerra à figura ímpar de Álvaro Cunhal, à sua vida, à sua actividade política, à sua e nossa luta, ao seu pensamento e à sua obra é, pelo seu valor informativo, didáctico e estético, e de grande utilidade para quem quiser conhecer não só o seu percurso de revolucionário corajoso e integro, comunista de toda a vida, de uma vida densa e multifacetada, mas também o desenrolar do próprio fio de história do último século, nos seus momentos mais expressivos e significativos, no plano nacional e internacional.
De uma história onde não foi apenas um mero espectador, mas desde muito jovem um activo protagonista, um construtor de novas realidades nos domínio da política, da arte e da cultura, de alguém que sabia para onde queria ir e que procurou e fez os caminhos para lá chegar. Por isso o seu percurso está impresso de forma indelével na história da luta do movimento operário e sindical nacional e mundial, na sua luta por um projecto de emancipação social e contra a exploração, e na história do nosso povo pela conquista da liberdade, da democracia, por um projecto de desenvolvimento ao serviço do país e do povo, por uma sociedade nova e pela independência nacional deste país quase milenar.
Esta exposição mostra o percurso de um revolucionário que transporta consigo uma história que conta outras histórias, pessoais e colectivas, porque um revolucionário, quando o é, nunca está só. Uma história de uma vida que está dentro de uma história maior, a História do seu Partido – o PCP – e que por sua vez se confunde com a História do nosso povo nestes quase cem anos que nos separam da sua criação.
Deste Partido que ajudou a construir de forma marcante a partir dos anos 40 e que, como nunca nos cansaremos de afirmar, não seria o que é, com as suas características e identidade, sem o contributo de Álvaro Cunhal, nem Álvaro Cunhal seria o que foi sem este Partido Comunista Português.
Uma história de vida e um percurso que inicia inspirado nos valores e realizações da Revolução de Outubro e selando um compromisso de honra de uma vida inteiramente dedicada à luta da emancipação dos trabalhadores e dos povos, ao movimento de libertação nacional, ao socialismo, ao projecto comunista e à paz.
Um compromisso tomado quando o nosso país enfrentava já a tragédia do fascismo e no horizonte se perfilavam as nuvens negras que transportavam a tragédia da guerra que, em breve, se iria abater sobre o mundo. Um compromisso de grande coragem, num tempo, como ele própria descrevia, ser um tempo de grandes opções e terríveis ameaças para a humanidade.
Um percurso de intervenção e de luta que Álvaro Cunhal percorrerá até ao dia em que nos deixou pela imperativa imposição das leis da vida, com uma indomável determinação e grande abnegação, resistindo às mais terríveis e duras provas em dezenas de anos de vida clandestina e prisão, sem capitulação e com a dignidade e nobreza dos combatentes convictos.
Um percurso feito de vitórias e derrotas, avanços e recuos enfrentado inimigos terríveis e sem escrúpulos. Mas um percurso de alegrias e de confiança. De alegrias sentidas e partilhadas por quem está na luta e por quem luta. De confiança nos seus companheiros de jornada e de projecto. De confiança nos trabalhadores, na juventude, no nosso povo. Alegria e confiança que transbordaram nesse momento maior da história contemporânea de que acabamos de comemorar o 39º. aniversário e que foi a Revolução de Abril.
A Revolução à qual Álvaro Cunhal deu um contributo precioso com a sua acção, mas particularmente com essa obra notável de estratégia e táctica política, na definição do Programa para a “Revolução Democrática e Nacional” e das orientações e tarefas para a sua realização, que é o “Rumo à Vitória” e que, inquestionavelmente, criou condições para a Revolução de Abril, a sua defesa e consolidação, e para as profundas transformações revolucionárias operadas na sociedade portuguesa.
Transformações que se traduziram em importantes conquistas dos trabalhadores e do povo português, em defesa das quais Álvaro Cunhal dedicou o melhor do seu saber, da sua experiência e da sua intervenção, como dirigente do PCP, como Deputado, como Ministro da República nos governos provisórios, como Conselheiro de Estado e que a exposição que agora se inaugura bem retrata.
Um percurso de uma vida que marca a diferença e que, estamos certos, não se dissolverá na memória dos homens, porque como titulava o nosso “Avante!” “ há homens que nunca morrem”, pelo seu exemplo, porque o seu combate necessário e justo é um combate que tem continuadores que encontram na sua vida, na sua luta, no seu pensamento uma referência e uma fonte de inspiração.
Intelectual, homem de conhecimento, possuidor de uma densa cultura e de uma grande dimensão humanista, deixou-nos um valioso legado teórico de estudos e análise política, mas igualmente uma importante produção artística, nomeadamente no campo da estética, da criação literária e nas artes plásticas, traduzida numa dezena de obras literárias, desenhos e pinturas, mas também importantes reflexões teóricas sobre as questões de arte e estética.
Uma obra diversificada e de grande riqueza e actualidade que é um património de todos os que aspiram construir um mundo melhor e mais justo, mas também mais belo.
Dizia Álvaro Cunhal, falando da “encruzilhada dos homens”: A história não pára e a humanidade segue. O grande problema é a direcção que ela seguirá. Aos homens cabe escolher e decidir.”
Ele decidiu escolher e seguir o caminho do combate contra a exploração, a opressão e a guerra, um caminho percorrido do lado e ao lado dos oprimidos, o caminho da dignidade da vida, da honra, da justiça!
Esta exposição é, por isso, também um desafio à escolha, num momento que igualmente os homens estão perante novas encruzilhas, porque ela é um hino à força criadora dos homens, de exaltação da vida vivida de cabeça erguida, feita de verticalidade, inteireza de carácter, de coerência e coragem, de busca incessante dos caminhos da vitória sobre a injustiça e as desigualdades, e na procura da concretização desse sonho milenar da construção de uma sociedade liberta da exploração do homem pelo outro homem.
Esse sonho que deu sentido à vida de Álvaro Cunhal e que continua a dar hoje sentido às nossas vidas!