Intervenção de Jerónimo de Sousa, Secretário-Geral, Sessão Pública «Centenário de Fernando Blanqui Teixeira. Destacado Dirigente do PCP. Resistente Antifascista»

Centenário de Fernando Blanqui Teixeira. Destacado Dirigente do PCP. Resistente Antifascista

Evocamos aqui e muito justamente, no Barreiro, nesta terra de trabalho e luta com uma intervenção e um papel marcantes na história do movimento operário português, o centenário do nascimento de Fernando Blanqui Teixeira, destacado dirigente do Partido Comunista Português, corajoso e firme resistente antifascista, laborioso construtor da realidade de Abril, criador e impulsionador industrioso nas formas do agir colectivo na transformação  visando um mundo melhor, com uma vida exemplar de dedicação à causa da emancipação da classe operária e dos trabalhadores, pela liberdade, a democracia e pelo socialismo.

Blanqui Teixeira, nasceu em Coimbra, mas fez do Barreiro, onde viveu, a sua terra a que muito queria e à qual deu até ao fim da sua vida, depois de longos anos de uma exigente intervenção como dirigente nacional, o seu contributo militante como membro da comissão concelhia do PCP, mostrando também que a nobre causa que abraçou ao serviços dos trabalhadores, do povo e do País, era uma causa para uma vida inteira e para ser cumprida fosse qual fosse a frente e o posto de combate. 

Fernando Blanqui Teixeira, destacado dirigente do PCP, corajoso e firme resistente antifascista, laborioso construtor da realidade de Abril, criador e impulsionador industrioso nas formas do agir colectivo na transformação  visando um mundo melhor

Blanqui Teixeira, esse homem generoso e simples, portador de um fino sentido de humor e de uma imensa humanidade, a quem aqui hoje prestamos homenagem, foi na realidade um homem de grande coragem, um intelectual revolucionário, que enfrentou, sem concessões, as mais brutais atrocidades e a prisão fascistas, para regressar sempre à luta clandestina pelo derrube da ditadura e a conquista da liberdade e da democracia.

Blanqui Teixeira aderiu ao Partido em 1944, ainda no decorrer da Segunda Guerra Mundial. Antes tinha já aderido à Federação das Juventudes Comunistas. Estudava, então, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, onde desenvolvia uma intensa actividade associativa. 

Foi membro da Direcção da Associação de Estudantes desta escola superior, dela tendo sido afastado por perseguição política. Aluno brilhante, formou-se em Engenharia Químico-Industrial em 1945 com a mais alta classificação do seu curso, tendo mesmo chegado, não oficialmente, a assistente da cadeira de Química Geral.

As suas qualidades, o prestígio democrático, intelectual e humano granjearam-lhe o maior respeito entre os seus colegas e companheiros de profissão. Um prestígio que haveria de estar patente nas grandes manifestações de solidariedade que recebeu e de exigência da sua libertação das prisões fascistas. 

O Camarada Blanqui Teixeira teria sido, poderia ter sido, um extraordinário engenheiro químico, um manipulador de fórmulas nos laboratórios, um criador de processos fabris.

O Camarada Blanqui Teixeira teria sido, poderia ter sido, um extraordinário professor de ciência e engenharia, fazendo discípulos e criando escola.

O Camarada Blanqui tomou, porém, a mais corajosa das opções, tornou-se funcionário do Partido, para ser o que havia de se revelar dali para a frente - um construtor de Partido, um organizador político que com as exigências da Revolução de Abril vai mostrar em pleno. 

Estávamos, então, em 1948, no momento em que o fascismo já contra atacava, depois do seu recuo forçado pelas grandes acções de massas do pós-guerra, aproveitando o clima de guerra fria e da política anticomunista desencadeada pelas forças mais reaccionárias do imperialismo que, não tardará, vai dar a mão a Salazar com a admissão de Portugal como fundador da NATO.

Clima anticomunista que hoje retorna numa inqualificável dimensão, a pretexto de uma guerra no Leste da Europa que nunca deveria ter começado e que está ser usada para branquear o papel da NATO e dissimular a sua natureza belicista e o seu carácter ofensivo. 

Sim, essa organização, ao contrário do que proclama, não é uma organização defensiva, nem tem nada a ver com uma alegada preocupação com a paz, a segurança, a liberdade, a democracia ou os direitos humanos. Na realidade, e desde o seu início, é um bloco político-militar determinado pelo objectivo de domínio imperialista, que não olha a meios para atingir os seus fins, incluindo apoio a regimes fascistas, como a nossa própria experiência o comprova.

Blanqui Teixeira mergulha na clandestinidade nesses tempos difíceis para as forças mais consequentes da Oposição democrática e para aqueles que como Blanqui se entregavam por inteiro à acção revolucionária de libertação do nosso povo do jugo fascista. 

Blanqui Teixeira realizou as mais variadas tarefas técnicas e de organização, nomeadamente como membro da Direcção Regional de Lisboa e de outros organismos de Direcção Regional.

Em 1952 passou a integrar o Comité Central, função que exerceu com a maior dedicação durante quase cinquenta anos, agindo em diferentes regiões do País. Passou e viveu em mais de duas dezenas de casas, partes de casa, tipografias e pontos de apoio clandestinos do Partido.

Ainda antes do 25 de Abril fez parte do Secretariado e da Comissão Executiva do Comité Central.

Blanqui Teixeira esteve preso em Caxias e Peniche, somando um total de quase dez anos de prisão. Preso pela primeira vez em Janeiro de 1957. Evadiu-se em 22 de Fevereiro de 1958 do Hospital de São José, onde fora em tratamento, iludindo a vigilância dos carcereiros, numa fuga audaciosa em que revelou grande iniciativa e coragem. 

Em 6 de Maio de 1963 foi de novo preso em Coimbra, quando a PIDE assaltou a casa clandestina em que vivia. Foi condenado a dez anos de prisão e «medidas de segurança», tendo sido libertado em Setembro de 1971 na sequência de uma importante campanha pela sua libertação que durou quase dois anos, com repercussões internacionais, a qual mobilizou muitas centenas de engenheiros e na qual a própria Ordem dos Engenheiros se empenhou activamente.

Retoma a actividade clandestina após a sua libertação e, quando o 25 Abril chega, dois anos e meio depois, vamos encontrá-lo a trabalhar intensamente na defesa e consolidação da Revolução libertadora com que sonhava e para a qual tinha dado o seu precioso contributo.   

Após o 25 de Abril, Blanqui Teixeira foi deputado à Assembleia Constituinte, eleito pelo distrito de Coimbra, membro da Comissão Política, entre 1976 e 1988, do Secretariado, entre 1979 e 1996, e da Comissão Central de Controlo entre 1996 e 2000. 

Neste percurso de grandes responsabilidades partidárias, os que o conheceram não podem esquecer o que semeou entre nós e nos deixou para melhor cumprirmos a nossa tarefa de construir uma sociedade mais justa e liberta da exploração e da opressão e para estarmos melhor preparados para quotidiana e perseverantemente de, com eficácia, assegurar e defender os interesses dos trabalhadores, do nosso povo e do País. 

Director de «O Militante», Boletim de Organização e Revista central do Partido, que dirigiu e construiu com um trabalho insano nesses tempos após Abril. A sua direcção e responsabilidade da Comissão de Organização junto do Comité Central que anos a fio consolidaram a estrutura partidária que temos hoje. O exemplo notável de dirigente de um Partido da classe operária e de todos os trabalhadores. O seu labor e a sua dedicação sem limites à vida partidária.

Quem o conheceu não esquece o seu sorriso acolhedor e um inesquecível timbre de uma voz tímida. Mas mais que outros traços da sua personalidade empática, não pode deixar de recordar aquela espantosa disponibilidade para tudo e todos acolher e de tudo e de todos colher força, razões, braços para fazer, construir o Partido a que entregou a vida. 

Blanqui Teixeira foi um semeador do Partido, do PCP, um militante fazendo militantes, um organizador político, um catalisador ideológico. Não perdia uma voz que pudesse ficar na teia do trabalho partidário. Não esquecia um punho, que um dia se levantou ao som da internacional. Era dos que pensava que todos os homens e mulheres de boa vontade valiam a pena. E não desistia de ninguém.

Blanqui Teixeira foi um semeador do Partido, do PCP, um militante fazendo militantes, um organizador político, um catalisador ideológico.

Compreendia, como nuclear primordial, o Partido como um colectivo, e que a contribuição de todos e de cada um no concreto, era decisiva, para que o colectivo fosse uno na acção, tivesse alicerces para crescer, energia e lucidez para responder à sua missão histórica de libertação e construção de outro mundo.

Foi responsável, entre outras, pelas organizações do PCP nos Açores e na Madeira e pela organização na Emigração.  

Foi com muito do seu persistente empenho e intervenção como membro da Comissão Política e no Secretariado do Comité Central, que o Partido se organizou e estruturou, após o 25 de Abril, nos Açores e na Madeira, regiões politicamente muito difíceis, pela debilidade da implantação do PCP, pelo caciquismo, pela inexistência efectiva de liberdade, pela intimidação e actividade terrorista e separatista.

Com uma presença naquelas Regiões pautada pelo esforço de inserção no meio, pelo continuado estudo da realidade insular e dos problemas económicos, sociais e culturais, e pela atenta compreensão da vida dos trabalhadores e do povo. 

Blanqui Teixeira foi sempre uma pessoa muito respeitada pela sua postura de rigor e coerência de vida, sendo no PCP um dirigente altamente considerado, não só pela sua prolongada intervenção consequente de lutador antifascista, como pela cordialidade e natureza afável e pela sua atitude profundamente respeitadora no trato com quem convivia ou na relação com quem com ele trabalhava. 

Lá o recordam pela sua capacidade invulgar para reter a lembrança e captar o registo memorial de acontecimentos, das vivências, de elementos simbólicos relevantes da vida dos indivíduos e do andamento da história. E mais ainda, pela sua atenção aos pormenores, ao quotidiano, aos aspectos do concreto da vida, aos ritmos e etapas de cada pessoa, de cada organismo, de cada processo que acompanhava directamente, com a delicadeza de quem rejeita ser intruso, e sempre com o sentido de projecto.

A par de uma cultura de exemplar militância política, decorrente de uma cuidada valorização do ideal comunista, Blanqui Teixeira era portador de uma memória viva da paciente e, tantas vezes morosa, construção de redes de apoio, da perseverante edificação de organização, do rendilhado das ligações e da difusão das ideias, do  construir de compromissos para tornar o Partido mais presente e mais influente na sociedade. 

O Camarada Blanqui Teixeira era, sem dúvida, um homem conhecedor das exigências que se colocavam ao Partido de novo tipo, Partido da classe operária e de todos os trabalhadores, no qual a organização é instrumento capital para promover, orientar e desenvolver actividade em todos os domínios e dimensões da vida colectiva. 

O Camarada Blanqui tornou-se no dirigente do Partido que, após o 25 de Abril e durante vinte cinco anos, mais interveio e sintetizou a teoria e prática da organização do Partido.

Vimo-lo a intervir em sucessivos congressos sobre questões de organização, expressando ideias, análises e orientações que são fundamentais na base prática e teórica do trabalho de organização do Partido.

O Camarada Blanqui tornou-se no dirigente do Partido que, após o 25 de Abril e durante vinte cinco anos, mais interveio e sintetizou a teoria e prática da organização do Partido.

As suas palavras ainda ecoam em nós “É muito importante que se torne parte integrante do pensamento revolucionário que a organização do Partido é a nossa principal e mais poderosa arma” ou quando afirmava “a organização e a orientação política interligam-se dialecticamente (…) É através das células que o Partido estabelece uma forte ligação com as massas; (…) uma profunda ligação com os trabalhadores, com as populações, constitui a pedra de toque de qualquer organização do Partido”.  

As suas reflexões e as formulações que expressou, as medidas que brotaram do seu trabalho concreto, incluindo o seu trabalho directo aqui no Barreiro, de estruturação e funcionamento da organização, responsabilização de quadros, bom exemplo para o que é hoje necessário para o reforço do Partido, constituem um inestimável património do PCP que são inspiração para os nossos trabalhos de hoje que exigem uma redobrada atenção aos problemas da organização, para assegurar um Partido mais forte a todos os níveis e potenciar a sua intervenção. 

Mais forte para enfrentar e responder à preocupante evolução da situação económica e social nacional e aos agravados problemas que pesam negativamente e de forma crescente nas condições de vida da maioria dos portugueses, como são o aumento de custo de vida, o aumento da exploração e das injustiças e desigualdades sociais, a negação do direito à habitação, a degradação dos serviços públicos, desde logo do SNS.

Mais forte para agir e superar com êxito o actual quadro político-institucional desfavorável aos interesses populares, aos interesses dos trabalhadores, dos reformados, dos intelectuais e quadros técnicos, aos homens da cultura, aos micro, pequenos e médios empresários, do nosso povo. Esse quadro que está marcado por uma maioria absoluta do PS, em que emerge o seu compromisso, cada vez mais exposto nas suas opções e prática política, com os interesses do grande capital, mas também por uma ampla promoção de projectos e forças reaccionárias. 

Estes primeiros tempos do Governo PS de maioria absoluta confirmam que a resposta aos grandes problemas nacionais não só vai continuar adiada, como a realidade se vai agravar, quando se nega a reconhecer a existência e a profundidade dos problemas estruturais do País e recusa as soluções que poderiam assegurar uma resposta global aos problemas nacionais. 

Mais forte para combater a deriva antidemocrática de pendor anticomunista que por aí está. Para denunciar e combater a tentativa de imposição de um pensamento único, de criminalização da dúvida ou da opinião diferente da que querem estabelecer como dominante. 

Mais forte para juntar força à força da luta que aí está e que tem uma grande expressão na Acção de Luta Nacional, promovida pela CGTP-IN e em curso, que converge para a grande manifestação de 7 de Julho em Lisboa, mas também entre muitas outras à luta em defesa da paz, contra a guerra, as sanções e a corrida aos armamentos e que sai já à rua, em Lisboa, no próximo sábado, dia 25 de Junho! 

Mais forte para apressar a concretização de uma política que valorize o trabalho e os trabalhadores, os serviços públicos, apoie a produção nacional, assegure o controlo público dos sectores estratégicos, promova a justiça fiscal, enfrente as imposições da UE e a submissão ao Euro e assegure o desenvolvimento e a soberania nacionais, num quadro de paz e cooperação entre os povos. 

São tarefas exigentes as que temos em mãos e às quais nos lançamos com a confiança e a convicção que nos vem da justeza das causas e do projecto que defendemos, causas e projecto que animaram toda a vida do camarada Blanqui Teixeira e cujo exemplo de revolucionário estará sempre diante de nós. 

Como está a sua companheira Albertina Santos Marques Blanqui Teixeira, funcionária do Partido clandestina – a camarada Tina – como carinhosamente gostávamos de a tratar, ela também um exemplo de mulher comunista dedicada à causa revolucionária do seu Partido até ao fim da sua vida. 

A melhor homenagem que podemos prestar à sua memória é valorizar e praticarmos nós próprios o que de melhor vive no seu exemplo de revolucionário.

É confirmar que o PCP continuará a forjar milhares de militantes que se revêem no seu exemplo. É garantir que este Partido centenário, de identidade comunista, desempenhará um papel insubstituível na construção de um Portugal de liberdade e soberania, pelo socialismo e o comunismo.

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