Intervenção do Deputado
Carlos Carvalhas

Pergunta ao Primeiro Ministro
no debate sobre a situação política do País
e a estratégia do Governo para Portugal

17 de Maio de 2000



Senhor Presidente
Senhores Deputados
Senhor Primeiro Ministro

Não custa advinhar que perante os protestos e o mal estar dos estudantes, pais e professores, que são uns ingratos porque não interiorizaram ainda a sua paixão pela educação; que perante o marasmo na saúde e tantos protestos dos trabalhadores, que perante as criticas vindas do seu grupo parlamentar, de ex-ministros e até de membros do Governo - numa das últimas chegadas do Primeiro Ministro ao aeroporto de Lisboa, o círculo mais "In" do Governo lhe tenha dito: "o quadro do país não é rosa. A coisa está ficando preta". Face ao desencanto, ao descontentamento e ao protesto, é necessário que o Primeiro Ministro comunique mais com o País.

E assim lá se arranjou uma entrevista ao canal 1da RTP, umas inaugurações à pressa de meia dúzia de quilómetros onde se prometeu mais uma vez a conclusão da Via do Infante e da auto-estrada Lisboa Algarve, e este debate na Assembleia da República que sempre tem um figurino muito mais favorável ao Governo que qualquer interpelação...

Mas Sr. Primeiro Ministro, a questão não está na falta de comunicação, não está na falta de propaganda ou de sorrisos, a questão está na postura do Governo e nas políticas seguidas.

É uma evidência que por motivos eleitoralistas este Governo não fez a Reforma Fiscal - fundamental para as outras reformas - e que também por razões eleitoralistas e para condicionar os aumentos dos salários dos trabalhadores, nomeadamente da função pública, só aumentou os combustíveis após a aprovação do Orçamento de Estado.

Agora sem reforma fiscal diz que não há dinheiro para os trabalhadores da administração pública e dos transportes, embora tenha havido para satisfazer as reivindicações dos transportadores, ou para manter os privilégios à Banca e os benefícios fiscais às actividades financeiras e especulativas.

E também, contrariamente ao que afirmava quando estava na oposição criticando a UGT, por ter assinado um acordo abaixo da taxa de inflação mais os ganhos de produtividade, o Sr. Primeiro Ministro diz agora que o governo não pode aumentar os trabalhadores da Administração Pública porque a inflação lhes comeria os respectivos aumentos nos meses seguintes...

Isto é, para uns as compensações, os aumentos, os benefícios e os lucros não são impulsionadores de inflação, para outros já o caso muda de figura.

O Sr. Primeiro Ministro sabe que o Governo não tem razão e que com o seu eleitoralismo e com a sua intransigência é o responsável não com um "dedinho", mas com as duas mãos pelas greves e pelo protesto social.

Na Carris o Ministério do Emprego avança com uma proposta de 4%, os trabalhadores dão o seu acordo, mas o ministro da tutela dá indicações à administração para não aceitar. Que jogo é este? Quer-se arrastar as greves dos transportes com os graves prejuízos que causam aos trabalhadores e às populações? Porque? Porque o Governo tem medo das criticas e da falta de apoio das grandes confederações patronais? Mas então as altas taxas de lucro estão primeiro que os trabalhadores, que os reformados, que as pessoas?

Basta de política neoliberal. Basta de desculpas de mau pagador Sr. Primeiro Ministro.