Referendo sobre a descriminalização da interrupção voluntária da gravidez
Intervenção de Odete Santos
28 de Setembro de2005
Sr. Presidente,
Sr. Deputado José Vera Jardim,
No anterior referendo,
estivemos do mesmo lado da barricada e agora, se o houver, também estaremos. Porém, já na altura fomos
empurrados para o referendo pelo então primeiro-ministro, o Eng.º Guterres, com a discordância, aliás, de
muitos militantes do Partido Socialista.
Apesar de não ter muito tempo disponível, gostaria de dizer que não é verdade — mas
não é isso o que agora vou discutir — que as legislações de muitos países europeus tenham a solução
preconizada pelo Partido Socialista. A França teve-a — e o projecto de lei do Partido Socialista teve por
base a lei francesa —, mas hoje já aumentou a possibilidade de interrupção voluntária da gravidez para 12
semanas.
De qualquer forma, gostaria aqui de dizer que a continuação da situação que as mulheres portuguesas
vivem, em que são levadas para os bancos dos tribunais e vêem a sua vida e a sua privacidade devassadas,é insuportável. Este é um assunto que a Assembleia da República deveria resolver rapidamente, aliás,
já teve possibilidades de o fazer.
É claro que a direita diz, como lhe temos ouvido, que não há qualquer mulher na cadeia. Isto é uma
grande hipocrisia! Se não há, então, para que querem a lei que ameaça as mulheres com penas de prisão
até três anos?!
De resto, sempre é possível, ainda que não logo no início, ir para a cadeia por causa desta
lei. Bastará que a prisão seja remida a dinheiro, que não se pague ou não se possa pagar a multa e que,
depois, não se possa sequer prestar trabalho a favor da comunidade. Aliás, essa era uma solução advogada
pelo então ministro Bagão Félix, que dizia que com o trabalho a favor da comunidade as mulheres pagariam
a sua culpa de não se conformarem com as leis.
Desta maneira, esse argumento da direita não tem absolutamente razão alguma de ser.
Mas também o PS veio prolongar a situação de aflição e de angústia das mulheres portuguesas,
veio prolongar a possibilidade de poderem ser denunciadas. E depois do referendo houve, efectivamente,
um agravamento na perseguição penal das mulheres, houve mais casos denunciados nos tribunais,
sendo esse um dos resultados da insidiosa campanha dos movimentos do «Não».
O PS vem com um argumento muito frouxo: o de que tem no seu programa eleitoral a realização do referendo.
Pensam os Srs. Deputados que efectivamente os portugueses que votaram no PS votaram em tudo o
que constava do programa eleitoral?
Isso nem corresponde ao nosso sistema democrático!
Termino dizendo que, há uma semana, quando estive nas Caldas da Rainha, li num jornal uma declaração
de uma pessoa, perfeitamente identificada com o número de militante do PS, pedindo perdão aos portugueses
por ter votado no PS.
Li-o no jornal Público, não em qualquer jornal regional!