Soma Pouca * |
O
desejo de poesia
É também como justiça devida que entendo a publicação deste seu livro. Por ser de quem é; por ser um outro traço da sua complexidade enquanto indivíduo; mas também pelo simples facto destes poemas existirem, assim como existia, hesitante embora, o próprio projecto do livro. Falei de «simples facto», mas no sentido em que, neste caso, ele bastaria para justificar a publicação. Mas o facto em si não tem nada de simples, antes nos interpela ou faz pensar. Como compreender que este militante e dirigente político a «tempo inteiro» fosse escrevendo, rasurando e emendando poemas ao longo de tantos anos, mesmo se com algumas intermitências (e reparar-se-á que o maior intervalo de tempo sem poemas que tenha guardado é o que se sucede ao ano da revolução de Abril)? Na nota introdutória, redigida há anos e a que chamou «Explicação talvez supérflua», Carlos Aboim diz que foi «escrevendo poesia. Como muitos outros». Esta curta frase não é um mero gesto de modéstia, é uma constatação que se mantém verdadeira quer esses outros sejam seus companheiros de luta ou não. Não é coisa que se arrume com o recurso a estereótipos do tipo «Portugal é um país de poetas».
O que está, sim, em jogo é algo difícil de dizer rigorosamente e a que chamarei a experiência não só da necessidade mas do desejo de poesia. O belo título Soma Pouca, a já referida «Explicação talvez supérflua» escrita há anos, a organização em sequências com título próprio e correspondendo a blocos cronológicos; os versos de outros poetas que escolheu para epígrafes, o próprio gesto de datação de praticamente todos os textos, a existência de várias versões ou emendas e o que os poemas dizem e fazem, tudo nos leva a falar desse persistente desejo de poesia. Tudo é testemunho de um fazer da poesia que se concebe, ao mesmo tempo, como uma espécie de experiência vital ou de necessidade respiratória e como uma arte ou seja algo que supõe uma «técnica».
Se é Soma Pouca o livro, por um lado, isso deve-se à sua exigência e, por outro, é talvez o sinal do desejo de que tivesse podido ser maior. De qualquer modo, esta poesia é uma experiência inteiramente ligada ao tempo individual e colectivo, ela é, como o próprio o diz, roubo a um tempo já de si roubado a «outras formas de viver, amar, lutar».
É claro que se trata de uma poesia marcada não só pelas terríveis circunstâncias da sua formação intelectual, cultural e política, ainda muito novo, nos anos 40; e pelas escolhas (também de vida) que foi fazendo. Carlos Aboim Inglez vem de um tempo em que o comunismo, para além de um conjunto de teorias (da história, da economia política, da revolução e do socialismo), era não apenas uma visão geral do mundo, mas uma visão detalhada de várias esferas da vida, que incluía a especificação de uma ética. Assumindo uma interpenetração entre o ideológico e o estético a sua poesia integra as razões do seu combate e, ao mesmo tempo, o tom do lirismo pessoal, a pequena nota paisagística, a anotação de um «clima» emocional, a comoção enternecida perante um rosto.
Não ignorando a importância da escolha das palavras e dos acordes verbais a conseguir, demorando-se na procura da solução rítmica que melhor lhe soava, a sua poesia é sobretudo testemunho autobiográfico capaz de auto-ironia (veja-se o título da sequência «Biografia de óculos desfocados»), testemunho de uma solidão histórica — individual e colectiva (que encontra o seu tom vibrante no arranque da introdução ao «Catálogo de uma exposição», de Teresa Dias Coelho), testemunho desse «Espólio da esperança» que assumiu como partilha militante dos seus valores; e testemunho do seu fascínio pelo trabalho das artes e da técnica.
É também claro que a sua poesia se compreende a si mesma como expressão e como comunicação, ambas buscando a transparência. E entretanto essas categorias foram-se tornando problemáticas. Os poemas que aqui se publicam dão-nos ainda a ideia que vem de um romântico inglês, Wordsworth, a de que o poeta é um homem falando a outros homens.
Há hoje, por exemplo, razões para dizer que a poesia é uma arte minoritária: feita por poucos e por poucos lida. Trata-se do resultado de um complexo processo histórico que seria vão esboçar aqui. Avançarei apenas que isso não impede que a poesia possa ser pensada como inscrição na história, transporte no tempo, construção e transformação antropológica. Essa evolução poderá colocar nas suas margens a poesia do Carlos Aboim Inglez, mas não apaga o que nela é, como na de outros, diria ele, o irreprimível desejo de uma «comunhão humana» por palavras.
(*) Da autoria de Carlos Aboim Inglez, Edições Avante!, colecção Resistência, Lisboa, Agosto de 2003.
«O Militante» - N.º 267 Novembro/Dezembro de 2003