| Intervenção sobre o Estado actual da ofensiva
contra o regime democrático
Mais de 20 anos de ofensiva contra as grandes conquistas democráticas alcançadas com a Revolução de Abril, acompanhada de ataques ao regime democrático, conduziram àquilo a que temos classificado de “desfiguramento do regime democrático”. A proposta de Resolução Política, salienta que a
coligação PSD, CDS/PP, chegada ao poder, colocou como objectivo
estratégico fundamental prosseguir e aprofundar a ofensiva desencadeada
pelos sucessivos governos contra o regime democrático, ofensiva
que representa um salto qualitativo, assumindo um carácter global
ao desenvolver-se simultaneamente no plano político, económico,
social e cultural. Apresentando o regime democrático como uma realidade abstracta, separado da natureza das estruturas económicas e esvaziado das componentes definidoras do seu conteúdo concreto, reduzem-no aos aspectos formais, procurando fazer esquecer que o regime democrático português “sendo filho da Revolução de Abril” é inseparável das profundas transformações sócio-económicas, nomeadamente, da liquidação do poder dos grandes grupos económicos e financeiros ao fim e ao cabo os principais beneficiários e sustentáculo do fascismo, um regime em que a democracia participativa deve assumir o carácter de complementaridade da democracia política.
Ao contrário do que pretendem fazer crer certos detractores do PCP, nós comunistas portugueses que, em condições de uma brutal ditadura lutámos como nenhuma outra força política pela liberdade, não subestimamos a importância da democracia formal, mas é necessário lembrar que o regime democrático português definido pelas suas características essenciais é inseparável das grandes conquistas democráticas de Abril as quais com a activa participação das massas populares rasgaram a perspectiva de um Portugal desenvolvido, soberano e independente, capaz de assegurar ao povo português uma vida melhor, no quadro de amplas liberdades. E isto é tanto assim que ainda hoje a Constituição da República, apesar das mutilações que lhe foram infligidas pelas sucessivas revisões, consagra como objectivo e dever do Estado defender e promover as condições necessárias à realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa. Quer isto dizer que os preceitos constitucionais que seria pressuposto serem defendidos e obrigatórios para todos os Governos da República estabelecem uma relação directa, prática e indissolúvel entre os quatro vectores definidores do regime democrático e o Estado como seu instrumento e garante. E quer igualmente dizer que os sucessivos governos do PS, PSD e CDS, sob as formas conhecidas, com as privatizações e a restauração dos velhos e novos grupos económicos, o crescente domínio do poder político pelo poder económico, a degradação das condições de vida das massas, a limitação de direitos dos trabalhadores, têm desenvolvido uma política anticonstitucional, antidemocrática e contrária aos valores e às conquistas de Abril e consequentemente desfiguradora do regime democrático, com o crescente domínio do poder político pelo poder económico, a governamentalização da vida política, do aparelho de Estado transformado em coutada para satisfação dos clientelismos partidários, da comunicação social pública posta ao serviço dos partidos do poder. A chamada reforma do sistema político, já consubstanciado
na “Lei dos Partidos” e na “Lei do Financiamento e das
Campanhas Eleitorais”, constituem um brutal atentado ao regime democrático.
Parte integrante dos ataques ao regime democrático é igualmente
o propósito do PS e do PSD se entenderem para criar um sistema
político bipolar, introduzindo alterações antidemocráticas
nas leis eleitorais para as Autarquias Locais, para as Assembleias Legislativas
Regionais e para a Assembleia da República. Uma política económica não virada para o desenvolvimento do país, mas para a concentração e centralização do capital, a intensificação da exploração, os baixos salários e pensões; uma política visando a degradação do Serviço Nacional de Saúde, o apossamento dos bens da Segurança Social pelas Seguradoras, é absolutamente contrária à exigência da democracia social. A crescente subordinação de Portugal aos ditames de Bruxelas e o rumo federalista da integração europeia, pondo em causa a soberania nacional e restringindo significativamente o direito dos portugueses poderem decidir democrática e soberanamente de questões fundamentais para o seu destino colectivo, torna ainda mais distante e irrisória a possibilidade da democracia participativa. Camaradas, As coisas estão claras. Está provado que o ataque às conquistas e direitos sociais, caminham a par dos ataques ao regime democrático. A ofensiva contra as vertentes essenciais do regime democrático se não for interrompida conduzirá a uma profunda reconfiguração do sistema de poder e do próprio regime democrático, objectivo já hoje reclamado abertamente por uns, disfarçadamente por outros sob a exigência de uma “rotura democrática” mas uns e outros convergindo na ideia que está chagada a hora do ajustar contas com o 25 de Abril, naquilo que tem de mais significativo e duradouro. Nós, comunistas, que não nos limitamos a ver os perigos e as dificuldades, daqui, da tribuna do nosso XVII Congresso declaramos, que o PCP, com os trabalhadores, com as massas populares, com todos os sectores democráticos que se revejam nos valores de Abril, continuará a lutar para derrotar a política de direita, pela defesa do regime democrático. Viva o PCP!
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