| Intervenção sobre o capital monopolista e a democracia
portuguesa Agostinho Lopes Membro da Comissão Política e do Secretariado do CC do PCP O que agora alguns descobriram Como se chegou a «isto»? E talvez, com alguma memória, um pouco de inteligência e o afastamento de antolhos de diversas qualidades se perceba que é o resultado de quase trinta anos de política de direita, levada a cabo pelo PS e pelo PSD. Resultado da política de recuperação capitalista e monopolista e destruição das conquistas de Abril em todos os sectores e áreas da vida nacional. Na política, na economia, no social, na cultura, no lugar e papel de Portugal no mundo. A política de recuperação capitalista e monopolista teve como eixo central a reconstituição dos grupos económicos monopolistas. A reconstituição do seu poder económico, social e político. Os tais grupos económicos que, para António Guterres, seriam «os elementos racionalizadores das transformações económicas do país, da modernização e de um novo modelo de especialização». E com a reconstituição dos grupos, a oligarquia financeira, submergida, escondida, espavorida, fugida da Revolução de Abril, revitalizada com o sangue novo das benesses e capital, muito capital, oferecido pelos governos PS e PSD, reforçada e renovada com novos grupos e contando com a cumplicidade activa do capital transnacional, qual vampiro renasceu das cinzas, para fazer chegar o país aonde agora estamos. Não encenem agora a farsa dos pobres enganados ou queiram fazer da gente parvos! A comunicação social sofre do perverso domínio dos grupos económicos, da promiscuidade com poder político e o poder económico, da exagerada concentração da propriedade dos órgãos de comunicação social!? O país tem cerca de dois milhões de pobres. Profundas desigualdades e desequilíbrios no seu território!? O país tem dos salários mais baixos da Europa, mas tem dos «administradores» mais bem pagos do mundo!? (E já agora pensões de reforma condizentes) O país tem uma crónica e crescente diferença entre o que importa a mais e o que exporta a menos — na relação com o PIB, o défice da Balança Comercial é o maior da UE. Porque não produzimos. Mais que factos, são uma constatação. A democracia, a justiça social, o desenvolvimento do país deram-se mal com o poder dos grupos económicos monopolistas reconstituídos. Uma velha tese do PCP — alguns dirão uma cassete do PCP — que a vida plenamente confirmou. A incontornável degradação do regime democrático perante as dinâmicas económicas, sociais, políticas e culturais da recuperação do capital monopolista. A implacável imbricação entre as desigualdades sociais e assimetrias regionais e a acentuação das lógicas da dominação e exploração capitalistas. A total incompatibilidade entre a defesa dos interesses dos grupos económicos e a promoção do desenvolvimento do país. Não será, assim, de estranhar que os monopólios assaltem o país e os cidadãos A Banca prossegue a escalada dos lucros obscenos. Baixam as taxas de juros directoras e as margens financeiras estreitam-se. Nada de pânico. O Estado não só contribui com generosos benefícios fiscais e protocolos privilegiados como permite que as taxas de juro efectivas, e sobretudo as comissões bancárias, assaltem a bolsa dos cidadãos, os rendimentos das pequenas empresas e dos sectores produtivos. Os grandes Grupos de Distribuição sentem falta de ar. Não há problemas. A política de direita arranja-lhes mais espaço. O governo PS, violando a legislação que tinha produzido, licenciou, ultrapassando as quotas estabelecidas por lei. O governo PSD/CDS-PP ultrapassa o problema com nova legislação liberalizando o licenciamento. A Portugal Telecom perde milhões em negócios ditos de internacionalização. Não se preocupem. O governo arranja-lhe um reporte de prejuízos em sede fiscal e assegura-lhe tarifas que lhe permitam apresentar lucros vultuosos e prometer uma distribuição de dividendos em 2005 aos seus accionistas de 800 milhões de euros. As Petrolíferas vêem o preço do petróleo disparar. Mas não haja aflições. O governo permite-lhes a repercussão automática dessa subida nos preços dos combustíveis, além de uma evidente cumplicidade com a política de concertação de preços e o esmagamento da concorrência dos pequenos distribuidores. O país tem falta de investimento produtivo. Não fica o problema sem resposta. O governo cria uma agência específica, a API, para tratar do problema e alarga os cordões à bolsa com grossos incentivos (fiscais e fundos comunitários) ao investimento directo estrangeiro (IDE) que cá arrime. Entretanto, o grande capital nacional busca noutras paragens a «optimização financeira», transformando Portugal num exportador líquido de capitais (já que não temos mercadoria exportamos dinheiro)! A oligarquia financeira tem falta de dinheiro fresco e o grande capital de negócios rentáveis. Que ninguém se zangue. A política de direita arranja-lhes parte das receitas da Segurança Social pública, dinamiza os fundos de pensões e abre-lhes a porta aos negócios na saúde e na educação. É evidente que a resposta não será pôr Cavaco Silva em Belém e o Sócrates em S. Bento (ou vice-versa), como concluiu o comentador que perguntava «como sair disto». Mais da mesma política de direita só pode significar agravar todos e cada um dos problemas que o país hoje enfrenta. Não passará igualmente pelo desenvolvimento do Estado-mercado com a crescente aplicação do princípio neoliberal do utilizador-pagador. Ou com a multiplicação das entidades reguladoras, que nada regulam. E não serão as mistificadoras operações da «responsabilidade social das empresas», ou da sua «governança sustentável», ou os milagres económicos do «microcrédito» que responderão à perigosa situação em que a política de direita mergulhou o país. É necessário desatar o nó. Romper com o espartilho monopolista e o comando económico e político do país pelo poder ilegítimo e antidemocrático do grande capital nacional e transnacional, da oligarquia financeira que o controla. Insistindo que o devemos fazer, não apenas por razões económicas. Mas porque a Democracia Portuguesa assim o exige. É certamente um caminho difícil que está colocado aos comunistas e a todo o povo português. Um caminho que continua a construir-se, continuando a resistir a esse poder e às suas consequências. Um caminho que se consolida na afirmação de ideias claras sobre uma política alternativa, obrigatoriamente de rotura com a política de direita até hoje levada a cabo. Um caminho que crescerá com o persistente esforço de construção de uma alternativa política de poder ao poder do grande capital monopolista, quaisquer que sejam as forças políticas que em seu nome o exerçam. Alternativa onde, logicamente, estará o PCP. |