Intervenção de Francisco Lopes na Assembleia de República
"Há soluções, não há que ter medo do futuro."
Quarta 11 de Julho de 2012Debate do Estado da Nação
Sr.ª Presidente,
Sr. Primeiro-Ministro,
Srs. Membros do Governo,
Srs. Deputados:
Passou um ano de aplicação do pacto de agressão subscrito pelo PS e pelos partidos do atual Governo, com o FMI, a União Europeu e o Banco Central Europeu. Passou um ano de Governo PSD/CDS-PP e os resultados estão à vista: o estado da Nação é de profunda degradação económica, social, nacional.
Exploração, empobrecimento, injustiças e desigualdades sociais, desemprego, recessão, afundamento e desastre nacional, para benefício do capital monopolista e do continuado saque aos recursos nacionais, tais são as consequências deste ano da ação deste Governo.
Um milhão e duzentos mil trabalhadores no desemprego, alteração, para pior, do Código do Trabalho e a liquidação de direitos, essa prática de generalização da precariedade com contratação à hora por valores já abaixo do salário mínimo, o corte de salários, pensões e subsídios, a pobreza extrema, o ataque ao poder local, a destruição dos serviços públicos, a condenação de centenas de milhares de portugueses a uma morte antecipada por falta de acesso aos cuidados de saúde, a expulsão das novas gerações do País por razões económicas, a corrupção e o nepotismo, tais são algumas das chagas deste rumo que marca o presente de sofrimento e cada vez mais compromete o futuro.
Os trabalhadores e o povo português estão fartos disto. Disseram-no ao longo deste ano com uma intensidade de protesto e luta como há muito não se via. Dizem-no hoje mesmo os médicos na sua luta em defesa do Serviço Nacional de Saúde, que daqui saudamos.
Dizem-no os trabalhadores dos mais diversos sectores e a população por todo o País, numa ação que se amplia traduzindo o imenso descontentamento, que alastra.
Apenas um ano depois da sua posse, o desgaste e a erosão da base social e política deste Governo são evidentes.
O Primeiro-Ministro disfarça ou procura disfarçar isso multiplicando-se em desculpas e mistificações; o Dr. Paulo Portas aproveita a qualidade de Ministro dos Negócios Estrangeiros para andar pelo mundo a fugir do País e das consequências desastrosas da política que o seu Governo está a executar.
Prosseguindo e intensificando um rumo de décadas, o pacto de agressão com a troica está a levar a uma situação limite. Portugal não sai do pântano em que se afunda insistindo na política que o conduziu para ele. Não é saída aprofundar a agressão, como não é saída prolongá-la mais e mais anos ou instituí-la como instrumento permanente nos tratados, resoluções ou diretivas da União Europeia.
No atual estado da Nação, os responsáveis pelo descalabro esforçam-se para esgrimir este ou aquele truque propagandístico. É a exaltação do resultado da balança comercial falsificando o significado das exportações e omitindo que traduz o afundamento do consumo privado e do investimento e não a substituição de importações por produção nacional.
É de lembrar que trazem aqui um exemplo que mostra uma situação semelhante, no caso, de mais extrema miséria e degradação que se verificou no nosso País, o tempo da II Guerra Mundial. É esse o exemplo que querem dar hoje e para o futuro, mas recusamos esse caminho.
É ainda o pular de alegria, porque com a sua política só vão destruir, durante este ano, 5000 milhões de euros de riqueza do País, quando pensavam poder destruir um pouco mais.
Dizem que a recessão é mais ligeira, mas quando chegam a este ponto mostram já não ter mais nada para convocar a favor da sua política de desastre nacional. Resta-lhes o argumento do medo. Dizem «se não for assim é pior», mas, como se vê, continuar assim é ficar cada vez pior.
No estado a que a Nação chegou, medo só há que ter da continuação do rumo de afundamento que está em curso e que este Governo está a promover.
É necessária e urgente a adoção de uma política patriótica e de esquerda que liberte o País dos interesses do grande capital e abra caminho para o desenvolvimento, a melhoria das condições de vida, o aprofundamento da democracia e a afirmação da soberania nacional.
O PCP defende a rejeição do pacto de agressão contra os trabalhadores, o povo e o País. O PCP defende a imediata renegociação da dívida pública, nos seus prazos, juros e montantes. Sim! É essencial, é urgente! Renegociação da dívida nos montantes, recusando, desde logo, a componente ilegítima dessa dívida.
Não aceitamos como legítima uma dívida que resultou da imposição e aceitação da destruição das estruturas produtivas nacionais fazendo-nos comprar fora aquilo que podíamos produzir cá.
Não aceitamos como legítima uma dívida que se agravou com a canalização de dinheiro público ao serviço do grande capital para tapar buracos como o BPN ou o BPP e com muitos milhares de milhões de euros para a banca.
Não aceitamos como legítima uma dívida que resulta do sistema de extorsão montado pelo BCE, com um empréstimo, sim, um empréstimo de dinheiro a 1% aos bancos para estes o emprestarem a 7% ou 8% ao Estado português. Sim, esta dívida é ilegítima. Por que não emprestaram diretamente? Por que recorreram a este saque, a esta montagem de extorsão?
Renegociação da dívida também nos prazos e nos juros, não aceitando a extorsão que representam. Cabe aqui sublinhar que não é suportável pagar mais de 7300 milhões de euros por ano, só em juros, por uma dívida em grande medida ilegítima e que continua a aumentar.
É indispensável garantir que, no pagamento da dívida legítima, entre juros e amortizações, não se ultrapasse o valor de uma determinada percentagem das exportações — um critério idêntico ao garantido à Alemanha após a II Guerra Mundial. Já foi feito, já foi praticado, deve ser assumido nas condições de hoje.
Só assim, dizemo-lo aqui hoje, só assim será possível evitar o comprometimento das condições de vida das atuais e das futuras gerações e libertar os recursos necessários ao crescimento económico, à criação de emprego, ao desenvolvimento do País.
O PCP defende o fim das privatizações e a recuperação do controlo público dos setores estratégicos da economia nacional, incluindo a banca, colocando-os ao serviço dos trabalhadores e do povo. Não se pode aceitar que saiam milhares de milhões de euros do Estado para os bancos e continuem a ser os interesses da acumulação e da especulação a comandar a sua gestão. Se, como aconteceu recentemente, para dois dos maiores bancos o Estado canalizou uma verba três vezes superior ao seu valor nominal, há todas as razões para que a gestão desses bancos seja pública e ao serviço dos interesses nacionais.
O PCP, na salvaguarda do interesse público, defende a anulação ou a renegociação de contratos das chamadas «parcerias público-privadas» e a adoção de uma política fiscal que acabe com o escandaloso favorecimento da banca e da especulação financeira, bem como que ponha termo às rendas inaceitáveis que se verificam.
O PCP defende o desenvolvimento de uma política de defesa da produção e do aparelho produtivo nacional que substitua importações por produção nacional, assegure o aproveitamento dos recursos nacionais, estimule o crescimento económico, crie emprego, apoie as micro, pequenas e médias empresas e diversifique as relações económicas e comerciais do País.
O PCP defende o aumento dos salários, designadamente do salário mínimo nacional, das reformas e pensões, das prestações sociais, num processo de combate às injustiças e de melhoria das condições de vida, mas também de estímulo ao mercado interno, de valorização do trabalho e dos trabalhadores.
O PCP defende a afirmação dos serviços públicos na saúde, educação, segurança social, justiça, segurança das populações, cultura e transportes.
O PCP defende a assunção de uma política de defesa da soberania e da independência nacionais.
Há soluções, não há que ter medo do futuro. É preciso libertar os trabalhadores e o povo português do domínio do capital monopolista, libertar Portugal da dependência, libertar a Constituição da República da tirania que a amachuca e acorrenta.
Este é o tempo de um novo caminho. Quando é desenvolvida uma política contra a Constituição, quando o Presidente da República foge gravemente às suas responsabilidades, deveres e juramento, quando o Tribunal Constitucional aponta inconstitucionalidades, mas não obriga à sua retificação, é bom lembrar que a soberania reside no povo e que nas suas mãos está a chave do futuro. Assim foi e assim será!
O estado da nação portuguesa neste tempo em que vivemos exige a rutura e aponta o caminho: contra a política antipatriótica e de direita, uma política patriótica e de esquerda; contra o retrocesso social e civilizacional, os valores de Abril, no futuro de Portugal.







